Kelly Alves Sugiyama.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Conformismo.
Há tempos as coisas não iam bem. E se assim parecia era por pura ilusão e pelo esforço da menina em fingir não se abater. Ao longo dos anos ela aprendeu a engolir sapos... Na verdade não aprendeu, nunca soube, só soube fingir. Em seus sonhos aquele imenso e melecado sapo boi gigante nunca desceu; sempre fez o caminho inverso; agitava-se no estômago e ela o regurgitava, sentindo as pernas fazerem uma escalada frenética em sua garganta. Desespero de um anfíbio gosmento e seus gemidos de horror -misturados aos dela, é claro. E ela sempre o cuspia, cuspia e corria. Era essa sua interpretação desse sonho tão recorrente, que a perseguiu a vida toda. Vinha daí seu pavor desse animal, não podia pensar em vê-lo ou tocá-lo e já apareciam as inevitáveis náuseas físicas e psicológicas. Numa visita anos atrás à cidade de parentes distantes e desconhecidos, até então, deparou-se com uma leva deles. Isolada no meio do nada a cidade era composta por poucas dúzias de humildes casas e meia dúzia de postes reluzentes, atrativos de insetos e por conseqüência dos animaizinhos asquerosos os quais ela tanto repugnava. Eles estavam por toda parte: embaixo das camas, dentro dos armários, amontoados nas portas, dentro das privadas! Sua bisavó - uma senhora mirrada e cascuda, mas que não perdia sua face amena apesar dos arrotos escandalosos costumeiros na região - gargalhava de seu medo como uma criança ri ao fazerem-lhe cócegas. A menina passava o dia deitada numa rede esperando o tempo passar. Chegada a noite, noite de horrores. Mal se podia andar pela rua, a não ser abrindo caminho com os pés por entre a camada variegada de costas lisas. No centro da cidade uma televisão ficava guardada num pseudocofre atrelado numa torre de madeira. Todos se reuniam para assistir ao espetáculo da novela das oito, sentados uns ao lado dos outros, como numa missa, em tábuas de madeira improvisadas como bancos. Um senhor já fazendo hora extra nessa existência destrancava o cadeado e ligava o aparelho. Cochichos. A menina saía de casa em fila indiana, não importando as pessoas à frente ao atrás, só o que importava é que ela estivesse no meio, para evitar o contato com as criaturinhas nojentas. As crianças ali criadas mal notavam a presença de tais, a não ser na hora das brincadeiras, brincadeiras macabras: jogar sal para vê-los retorcer, fugir e morrer; fazê-los engolir bombinhas enroladas nos mais diversos artifícios e vê-los explodir; vê-los sendo atropelados e virarem sombras no asfalto e outras mil estripulias. A menina invejava a inocência daquelas crianças, ao mesmo tempo em que repugnava tamanha crueldade. Ela só não queria mais engolir sapos, mas vê-los agonizar... Até que no meio de tudo isso, das brincadeiras e da novela das oito, sua parentezinha adormeceu em seu colo. A menina esqueceu seus rivais molengas. Abriu caminho por entre eles, andou quarenta e cinco passos até a cama da garotinha, deitou-a e ficou olhando a garotinha roncar. Havia sim engolido sapos por aquele bebê, e percebeu que engoliria muitos mais na vida.
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